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Mogi News revela os bastidores da prostituição nas ruas do centro

By on abril 15, 2012

Equipe percorreu os principais pontos para desvendar como garotas de programa e travestis ganham a vida

 O temporal que ameaçou cair no começo da tarde chegou, por alguns instantes, ameaçar a pauta. Com chuva, eu e o repórter-fotográfico Osvaldo Birke não conseguiríamos conhecer os detalhes sobre como funciona o esquema de prostituição na ruas de Mogi das Cruzes. E a nossa missão não era das mais fáceis. No meu caso, além de convencer minha noiva – e o Birke explicar para a namorada dele – que se tratava de uma questão profissional, tínhamos de passar por clientes e frequentadores de prostíbulos do chamado “Quadrilátero do Pecado”, como ficaram conhecidas as ruas no entorno da praça Oswaldo Cruz, no centro, à noite.

Um mapeamento identificando as possíveis casas de prostituição no “Quadrilátero” foi feito com informações de leitores e a ajuda da equipe de repórteres e editores. Contudo, o levantamento se mostrou desatualizado. A prostituição em Mogi se expandiu e hoje não está concentrada apenas no entorno das ruas Barão de Jaceguai, Professor Flaviano de Melo, Coronel Souza Franco e Princesa Isabel de Bragança.
As garotas de programa e os travestis, em pontos na rua ou em imóveis, estão espalhados por todo o centro e bairros que margeiam esta região. Com nomes como “20 por 20″ e “30 por 30″ (vinte minutos de programa por R$ 20), ou identificadas por cores (casa azul, roxa, amarela, rosa, entre outras), elas estão em toda parte. Os imóveis “coloridos” recebem os nomes de acordo com a tonalidade das paredes ou lâmpadas. As casas mais “refinadas” contam com sistema de monitoramento por câmeras e salas para shows de stripers.
Os locais, casas comuns, foram adaptados para receber clientes. É fácil perceber que o lugar onde funcionava a cozinha virou um bar, com um balcão. A sala foi dividida com paredes de alvenaria ou divisórias. É nestes locais que ocorrem os programas. A seguir, saiba mais sobre os bastidores da prostituição em Mogi. “Concorrência na área está bastante acirrada” O primeiro local escolhido para anossa visita foi um prostíbulo na rua Doutor Deodato Wertheimer, que não fazia parte do levantamento feito inicialmente. Uma casa simples, com as paredes na cor roxa. À primeira vista, não é possível identificar que ali há garotas de programa. Ensaiando o que falaríamos quando fôssemos atendidos, batemos na porta. Um homem branco, barbudo, com voz simpática, nos atendeu. “Há seis garotas na casa. Fiquem à vontade”, disse.

Ele nos levou para um cômodo onde havia dois sofás encostados na parede, um jukebox, que não tocou nenhuma música durante nossa permanência, mas a última faixa a ser executada foi do pagodeiro Belo, e, ainda, uma mesa de sinuca. Um segundo funcionário foi conferir quem havia chegado. Foi ele quem avisou sobre os “clientes”.
A primeira a aparecer foi uma morena, aparentando uns 40 anos, e um corpanzil acima do peso. Medidas que pareciam ser padrão para as profissionais daquele lugar. Com beijinhos no rosto, elas, uma a uma, se apresentaram pelo primeiro nome. Todas com vestidos bem curtos. Morena, negra, loira e oriental. A variedade era grande.
A mais saidinha, uma loira que ostentava seios maiores que o sutiã que usava, logo ofereceu a promoção da casa: três cervejas por R$ 10. Rapidamente, uma comanda apareceu nas mãos do colega fotógrafo, que chamou muito a atenção de uma oriental. Ela usava um vestido vermelho que deixava as coxas à mostra. “Você tem cara de quem toca rock n´ roll”, descreveu, “e seu amigo (desta vez falando de mim) tem cara de quem canta sertanejo”, avaliou, para minha surpresa.

“Estamos em cinco meninas, mais a Gabi que está no banho”, afirma Fabíola, a loira, que se insinuava em cima da mesa de bilhar e também no sofá. “Se quiserem nós temos Martini (bebida)”, ofereceu a morena, a primeira a se apresentar. “Não temos mais porque a casa é nova. Só estamos aqui há três meses”, justificando o fraco cardápio.
Com uma tatuagem de um tigre na perna, ela perguntou se gostaríamos de ver a outra imagem que havia feito nos glúteos. Mesmo que a resposta fosse negativa, ela iria mostrar. E mostrou um dragão que começa na coxa e terminava nas costas. “E aí, como vai ficar?”, acelerou a tatuada. “Estamos conhecendo”, eu disse.
Gabi, aquela estava tomando banho aparece. Aparentemente, ela é a mais nova das seis meninas da casa. Ela é a encarregada de informar a tabela de preços: 20 minutos – R$ 35, meia-hora – R$ 40, e uma hora – R$ 100. “É 50% pra mim e 50% pra casa. Fico aqui das 14 até as 23 horas”, disse. (C.L.) Na esquina, o trabalho é “R$ 100, sem frescura” Depois da primeira experiência na casa roxa da rua Doutor Deodato Wetheimer, partimos para a abordagem de garotas de programa nas ruas. O interessante era conhecer as duas realidades. O local escolhido foi a rua Brás Cubas. Na esquina da avenida Voluntário Fernando Pinheiro Franco estava uma morena, aparentemente de 25 anos, usando shorts jeans curto, bolsa preta, salto alto vermelho, mesma cor da blusa de alcinha. Estacionamos o carro a dois quarteirões e partimos para a abordagem. Parei para conversar com ela e o fotógrafo ficou uns dois metros afastado. “Boa noite, como estão às coisas?”, perguntei. “Até agora está tudo muito bem”, disse a menina que para minha surpresa se revelou na verdade ser um travesti. A voz a “entregou”. “Como funciona o esquema?”, questionei. “Que esquema?”, ele perguntou. “Preço, onde acontece o programa, enfim, os detalhes”. “Cem reais, sem frescura”, revelou.
Um grupo de estudantes passou e o fotógrafo se aproximou. “Cem reais, sem frescura”, eu repito, tentando formular outra pergunta sobre o que seria essa tal de frescura. Os estudante que aceleraram o passo, o fotógrafo e meu ligeiro silêncio se transformaram em um cenário ameaçador para o garoto de programa. Ele resmungou: “Sai fora, tchau”, disse. “Não entendi”, pontuei.
“Eu disse para sair fora”, frisou. Então, ele se abaixou e puxou uma faca de dentro da bolsa.

Sem pensar duas vezes, deixei o local tentando entender o que teria feito para deixar o travesti com medo. “Será que ele desconfiou que éramos repórteres?, sugeriu o fotógrafo. “Talvez tenha imaginado que tentaríamos assaltá-lo, estávamos em dupla”, analisei.
Voltamos a passar pelo local, desta vez, de carro e com os vidros fechados, e ele não estava mais no local. Duas lições ficaram após esta experiência, nunca aborde um travesti em dupla e sempre que alguém com um objeto cortante pedir para sair, saia. O terceiro endereço que visitamos foi um hotel que funciona na rua Barão Jaceguai. Um grupo de homens estava na frente do estabelecimento comercial. Diferentemente de outros lugares que tentam disfarçar o prostíbulo, três garotas de programa logo nos receberam. “Tudo bem meninos?”, disse uma delas. “Tudo”, respondi, meio precavido. Em seguida fui conversar com o homem que estava atrás do balcão. Uma grande movimentação de entra e sai foi notada.
“Como funciona o esquema das meninas que estão aí na frente?”, perguntei. “Ela são autônomas e não têm nenhum vínculo com nosso hotel. A única relação é que colocamos nossos quartos à disposição para que elas levem os seus clientes. O cliente precisa pagar o programa de R$ 50, mais R$ 10 do hotel”, revelou. Outro funcionário do hotel passa pelo fotógrafo e pergunta: “Você é o Cabelo?”. Vale ressaltar que o fotógrafo Osvaldo Birke tem os cabelos na altura da cintura.
Com receio de sermos descobertos, informei que ele tinha o apelido de Cabelo, mas, provavelmente, não era aquele a que ele estava se referindo. Uma garota de programa nos salva pelo gongo. “Pare de ser curioso e deixe-os em paz”. Essa foi por pouco, porém, nosso “disfarce” não iria durar por muito mais tempo.

Voltamos, então, para a frente do hotel para conversarmos com algumas meninas. Das três garotas de programa que estavam no momento da entrada, agora restavam apenas uma, identificada como Raquel, uma loira de aproximadamente 40 anos.
O grupo de homens continuava no local, motivo de reclamação de Raquel. “Fica um monte de gente aí e os clientes passam longe”, afirmou. “O movimento hoje está muito fraco. Normalmente, tem um número muito maior de garotas, mas, hoje, é o último capítulo da novela “Fina Estampa” e as meninas foram assistir”, justificou Raquel.

Neste momento, entra em cena uma figura, um homem com tatuagens nos braços, que mudaria os rumos da noite e quase acaba com a nossa reportagem. Com forte odor de álcool, ele sugere uma visita ao VIP da prostituição. “A casa fica na Flaviano (rua Professor Flaviano de Melo) e lá a ´pegada´ é diferente”, tenta nos convencer.
Além de nos abordar, ele conversa com os seis homens que continuavam na frente do hotel à espera das meninas que não voltariam. Eles não foram avisados que a novela das oito havia chegado ao último capítulo. “Não vou fazer nada com você. Posso ser ladrão, mas não ´tô´ de sacanagem para o lado de vocês”, diz o homem, usando um argumento não muito convincente.
Ao ver que o “representante da casa VIP” tentava levar os clientes em potencial para a concorrente, Raquel começou a xingá-lo.
Após muita insistência, o tatuado desiste de convidar os outros clientes e se contenta apenas com nós dois. Com certa preocupação, o acompanhamos para o surpreendente fim da nossa novela, que assim como aquela que acabava naquela noite e seria a responsável pelo baixo movimento de garotas, teria muita aventura e suspense. (C.L.)

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Cleber Lazo
Da Reportagem Local